Apresentação

Define-se o L.E.Ciber como grupo de trabalhos e pesquisas em Letras e Educação na Cibercultura. Inicialmente pensado dentro da graduação da UNIPAMPA em Letras – Português, Licenciatura a Distância, o grupo nasce com a preocupação de, a partir da relação dialética entre teoria e prática, servir como lugar de estudos e, por consequência, de elaboração de estratégias de ensino e aprendizagem no ambiente virtual; estratégias essas que não devem prescindir da aliança entre ensino, pesquisa e extensão. Como executar essas três estratégias, que são tarefas inerentes à atividade do Professor do Magistério Superior na aurora da Cibercultura?

Para entender o alcance dessa questão, tomemos a definição de “cibercultura”, dada pelo filósofo tunisiano Pierri Lévy, em Cibercultura (1997 [2014]); livro que é fruto de um relatório encomendado pelo Conselho Europeu e em que abordou “as implicações culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de informações e de comunicação.” (Ibid., p.17; ênfase minha). Ele define ‘cibercultura’ como um neologismo, isto é, uma palavra nova que é reconhecida como atualizada pelos falantes, criada para especificar, diz ele, “[…] o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.” (Ibid.; ênfases minhas.)

O ‘ciberespaço’, deve-se acrescentar, é também denominado por Lévy como “rede”: “[…] é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo.” (Ibid.; ênfase minha.)

Para apreender a novidade enunciada por Lévy na própria materialidade significante – afinal duas palavras são criadas e postas em circulação a propósito –, devemos visualizar o complexo universo em que tais significantes fazem sentido.

Em Dilúvios, texto de Introdução de Cibercultura, o filósofo atenta a dois fatos (cf. ibid., p.11). O primeiro é que o crescimento do ‘ciberespaço’, possibilitado pela expansão da rede de computadores interconectados em escala planetária, resulta, assevera o filósofo, de um “movimento internacional” comandado pela juventude desejosa em experimentar “formas de comunicação diferentes” daquelas proporcionadas pelas mídias clássicas – isto é, os “meios”, os “canais”, os “suportes” ou “veículos da mensagem” a ser comunicada (cf. LÉVY, 1997 [2014], p.64; TORI, 2010, p.37) –. Disso deriva o segundo fato, a saber: que vivenciamos “a abertura de um novo espaço de comunicação”.

Lévy diz mais! Diz que, ao invés de reagirmos a isso tudo – digamos – de forma “conservadora”, devemos saber explorar as potencialidades que emergem nesse espaço tanto nos planos econômico, político e cultural. Ora, perguntemo-nos, por que é que não devemos ser “conservadores”? Que diferenças são essas a serem experimentadas? Que “novo espaço de comunicação” se abre na aurora deste novo milênio?

A resposta da primeira questão diz respeito ao alcance do ciberespaço na vida humana. Navegar nele não só cativou a juventude, como também já se faz sentir que a economia e o comércio já se estruturam nele. Ele está cada vez mais imiscuído na vida cotidiana, a ponto de hoje, para todo aquele que está conectado ou está on-line, o problema ser o de se “desconectar”, e não o de se conectar, como destaca o brasileiro Romero Tori, em Educação sem distância: as tecnologias interativas na redução de distâncias em ensino e aprendizagem (2010). Essa dificuldade em se desconectar resulta exatamente da forte exploração das redes sociais na comunicação entre pessoas, reduzindo, por consequência, as distâncias entre elas.

Lévy, por seu lado, destaca a necessidade de reconhecermos “as mudanças qualitativas na economia dos signos” proporcionada pela cibercultura e “o ambiente inédito que resulta [de toda essa] extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural” (LÉVY, 1997 [2014], p.12). Mais que isso, defende a necessidade de tomarmos a cibercultura como objeto de reflexão crítica (ibid., p.13), de forma a visualizar, encarar e enfrentar os problemas inéditos que são então levantados e colocados à cultura e aos povos de uma maneira geral.

Um desses problemas já está enunciado. É o das novas formas de comunicação, o do avanço da comunicação digital, o do surgimento de novas formas de transmissão de dados e informações, o do manejo do fluxo vertiginoso de informações. O terreno da Educação não está isento disso, pois, se é com a juventude que a cibercultura se concretiza e o ciberespaço se atualiza, as escolas necessariamente terão que levá-la em consideração e terão que rever as metodologias tradicionais de ensino, centradas quer na figura do professor como o sábio quer na Escola como detentora do saber pronto e acabado. Exigências de interatividade são cada vez mais colocadas em jogo e os alunos vão à sala de aula cada vez mais “conectados”.

Com tudo isso, o papel do professor frente o saber é deslocado, pois os alunos hoje em dia estão “conectados” e navegam na rede atrás de informações. Como então ensinar um saber que circula a despeito de mim? É por isso que, estudiosos como Tori (2010, p.26) defendem que, imersos nesta nova realidade, devemos explorar mais o ‘aprendizado’ do que o ‘ensino’, porque o primeiro conceito foca o aluno no processo, enquanto o segundo foca o professor e a escola. Note-se que os próprios lugares e papeis das instituições de saber começam a ser interrogados, exigindo novas políticas e novas posturas profissionais.

Isso nos permite responder a terceira questão que nos coloca o texto de Lévy, qual seja: que “novo espaço de comunicação” é esse que se abre na aurora deste novo milênio? O filósofo resposte ser o de um dilúvio de informações. Tudo se passa como se estivéssemos todos sendo inundados por uma torrente inesgotável de dados e mensagens virtuais, de tal modo que nosso habitat se torne virtual. Ou seja, cada vez mais assistimos à diluição das fronteiras entre o real e o virtual. O dilúvio é a metáfora da revolução radical em curso no campo da comunicação.

Nas sociedades orais, lembra-nos o filósofo, a voz humana constituía o único contexto, o único meio ou canal de transmissão de mensagens. Era um contexto vivo porque exigia a copresença de duas pessoas. Com o surgimento da escrita, uma tecnologia importante na história da humanidade, a mensagem pôde ser cifrada em contextos frios, mortos porque prescindem da copresença de interactantes na interlocução real e viva. Ela, a mensagem, pode ser lida em diferentes distâncias e tempos, criando universais discursivos totalizantes e ritualizados (cf. FOUCAULT, 1970), via mecanismos de fixação e controle do sentido. Sua interpretação passou, assim, ao domínio dos iniciados.

Com o surgimento do ciberespaço, a escrita e a leitura começam a perder esse caráter estático, unívoco e fixo, passando a ser coletiva, compartilhada, permanentemente interrogada e reescrita. São links com hiperlinks; textos com hipertextos, quebrando com o que Lévy chama de “autossuficiência dos textos”, com significados fixos e independentes. Sem contar que a barreira da distância passa a ser novamente quebrada. É como se a mensagem não pudesse mais ser cifrada em um único texto, tempo e espaço, mas que se estruturasse em fluidas contextualizações. A meu ver, é o que defende Lévy: “A hipótese que levanto é que a cibercultura leva a copresença das mensagens de volta a seu contexto como ocorria nas sociedades orais, mas em outra escala, em uma órbita complemente diferente. A nova universalidade não depende mais da autossuficiência dos textos, de uma fixação e de uma independência das significações. Ela se constrói e se estende por meio da interconexão das mensagens entre si, por meio de sua vinculação permanente com as comunidades virtuais em criação, que lhe dão sentidos variados em uma renovação permanente. (LÉVY, 1997 [2014], p.15).”

Em face disso, torna-se aceitável a tese de que novos espaços de comunicação inundam nosso cotidiano. No que toca a nós, dedicados às Letras e às Letras na formação de professores, não há como não levantar a questão (i) sobre a virtualização das práticas de ensino-aprendizagem nas nossas práticas; (ii) sobre a elaboração de novas práticas que criem um ambiente virtual e coletivo de se ensinar-aprender a ensinar-aprender; (iii) sobre os modos, técnicas e atividades a serem desenvolvidas de transmissão nesse processo complexo, tendo em vista a diversidade permanente de novos meios ou canais de comunicação e expressão.