Produções Artísticas

Enjoei de todas elas

                                                                                                           Alana Nunes

 Não agüento

Mais

Aquelas palavras

Que estão

Em todo lugar

 

Quero novas.

Não consagradas.

Que fiquem

À margem

Das coisas faladas

 

Palavras pras quais

Não há ventos

Propícios.

Patológicas, desnorteadas

A beira de um precipício

 

Quero palavras

Inventadas

Que não conheçam

Dicionários

Perfeitamente defeituosas

 

E que digam sempre

O contrário

 

Do que se espera de uma palavra

 

 

O escritor Parte I

Alex Pinto

 

       Seu nome fora dado pelas freiras pelas quais fora criado. Foi mais um órfão dentre inúmeros outros. Ele era realmente sortudo desde o dia do seu nascimento, pois fora mandado para o menor orfanato da cidade. Um lugar pequeno, numa casa tombada como histórica pela cidade, com a pintura velha e descascada, pois a verba das freiras mal dava pra o sustento dos doze órfãos que cuidavam. Não foram anos muito fáceis todos os dezoito que passara naquele simples lugar, foram anos de dificuldade e privações. Passava grande parte do tempo cuidando da pequena horta de temperos que a madre cultivava.

      As freiras lhe tinham muito carinho, talvez pelo fato de crerem que era doente, pelo simples fato de ler todo o tempo em que não estava na horta ou nos horários de reza obrigatórios pelas irmãs. Ao sair do orfanato fora mandado direto procurar um dos poucos beneficiários que ainda cuidava do velho lugar. Este lhe dera um emprego, “nada muito grande”, em suas próprias palavras. Um simples cargo de “office boy”.

       Seguiu caminho na empresa. Graças a um curso que fizera durante as férias de verão e pelo ótimo desempenho que tinha nas simples tarefas, fora promovido. Atuava agora sendo o auxiliar do contabilista. “Dentre os cargos inferiores o melhor”, era o pensamento que lhe trazia felicidade, por notar que conseguira crescer mesmo que fosse o mínimo!

       Saído de mais um dia cansativo no novo cargo, caminhava assobiando um triste tango pelas ruas, e num momento puramente espontâneo coloca a mão no bolso, da calça jeans surrada de tanto uso, e encontra um papel até então esquecido. Coisas básicas e simples do dia a dia na sua singela lista de compras, arroz, feijão, e a única coisa que lhe trazia a urgência na compra, o sabonete! Enquanto caminhava em direção ao mercado, retira de sua mochila a carteira de couro velha e surrada que ganhara de seu chefe há três natais atrás. Dentro encontra sempre a foto de seu único relacionamento amoroso, uma secretária loira da firma, os documentos e o mais importante para ele, a nota de dez reais.

       Já se fazia tarde quando chegou ao mercado, o crepúsculo estava se fazendo vagarosamente presente. Pegou uma das cestinhas amarelas, que sempre lhe davam vontade de rir, ao imaginar que quem as criou, criou pensando nele. Andou pelos corredores do mercado, comprou o arroz, o feijão, algumas balas e claro o sabonete.

       As ruas estavam agora escuras e a lua já se fazia presente, a fila no mercado hoje estava maior que a de costume. Seguiu seu caminho de sempre até a casa da velha senhora do qual alugava um quarto e fazia companhia. Sempre que olhava a fachada da casa sempre se lembrava do orfanato e isso lhe trazia uma gostosa nostalgia. A casa cheirava a mofo e umidade, sempre que entrava a velha senhora de cabelos cor de neve vinha em sua direção rindo, lhe oferecia a janta e perguntava como fora seu dia. Neste dia não foi diferente além do fato de que pegou as compras para guardar.

       Ele notou algo estranho no ar, hoje embora tendo feito as mesmas coisas rotineiras, a senhora não aparentava a feição que sempre carregava, hoje estava triste, e os velhos olhos lacrimejavam. Tentou saber o motivo de tal tristeza sem o muito sucesso. Então deixou a pequena sala, seus dois sofás e sua mesa, foi tomar o banho com o sabonete que comprara. Serviu-se de arroz, feijão e batatas e foi para o quarto, deitar seu corpo cansado e terminar de ler o livro que ganhara da “velha”.

       O dia começou mais quieto que os outros, na manhã posterior, não sentiu o aroma do café fresco e nem das torradas que ela preparava para lhe esperar. Naquela noite ela dormiu e não mais acordou. Ele bateu algumas vezes na porta do quarto dela, sem reposta, quando finalmente decidiu entrar. Viu seu corpo branco e enrugado deitado na cama, sem o sinal do ar entrando em seus pulmões.

       Tomara conta de todos os encargos fúnebres com prazer e dedicação, pois a “velha” tinha sido a avó que ele não teve. Tentou avisar os parentes do falecimento, mas o máximo que recebeu de retorno foi um “já foi tarde” como resposta! Surpresa grande teve quando descobriu que ela havia deixado em testamento tudo o que tinha a ele. Era realmente pouca coisa, a casa velha, os moveis, e alguns livros velhos e encardidos.

       As semanas se arrastavam, agora ele estava como nunca estivera, sozinho. Já fazia um mês da morte dela quando resolveu olhar os livros que ela lhe deixara. “Diários” – lia boquiaberto. Os livros que ela lhe deixara eram de sua própria autoria e mais, eram os seus diários, inúmeros de quase todos os anos que ela vivera. Levou alguns meses até conseguir ler todos, eram incríveis as memórias de uma velha que morrera solitária. Sua vida continuava em sua mesmice mórbida. Nada mudara desde a morte de sua avó, assim considerada.

       Passou um ano selecionando as memórias da velha senhora. Tivera a grande ideia de tentar laçá-las como livro. Buscou dentro todos os livros as memórias que julgou mais “incríveis”. Seu chefe era um homem influente, e agora era a vez dele de ajudar o rapaz a crescer. Apresentou-lhe o editor chefe de uma revista e logo lhe conseguira a editora.

      Nos dois meses após o lançamento sua vida virara de cabeça para baixo, estava vendo uma quantidade de dinheiro que jamais vira e ainda conhecera celebridades que via pela televisão e que jamais pensou em conhecer. Em quatro meses estava riquíssimo como jamais imaginara e estava com um contrato assinado para mais dois livros com a editora que lhe dera a grande chance.

      Agora não era mais um “Zé ninguém”, era um homem famoso e conhecido por todos, pois seu livro era o maior best seller dos últimos dez anos. Ele tinha seu nome estampado em todas as revistas que conhecia e mesmo que nunca ouvira falar, era finalmente alguém. O mais famoso autor do momento, Diego Rosa Munhoz, o grande autor da magnífica obra “As memórias de Rosane Valentine – Uma prostituta na década de quarenta”.

Continua na próxima edição …

 

Conto de Carla da Silva Betemps

People tell an old story which says that at a common residence there was gold buried by slaves’ hands, but to find this treasure one should be chosen by those who were buried with the gold.

Once a couple resident in this house was surprised by a somewhat frightening apparition. It was the ghosts of the slaves who were buried with the treasure. They were black, tall and strong. The night was very dark, and this view caused great fear in the couple, knowing that when they appeared they usually wanted to receive something. The woman was very frightened by this apparition because she feared they wanted to exchange the gold for the children, who were already asleep. The man, however, wanted to know what he should do to put his hands on the hidden treasure.

 The conversation between them was not very clear, as the slaves’ voices were mixed, and the couple was getting increasingly panicked because they did not know what was coming. The slaves were anxious to tell where the gold was hidden because it seemed that there was someone persecuting those poor souls. After a long period, in an attempt to understand what they were saying, the couple discovered that the gold was buried under a banana tree. In order to take it from there, it was necessary that the couple performed a rite of passage, so that the souls of those slaves could find peace. However, the couple thought about how to do this without other people discovering the real reason for this ritual. Then they remembered that the husband had an aunt who was into Candomblé and could help them with the ritual. The delivery of the gold was then set for the next full moon.

 The night came as the full moon lit the night and all preparations were set to deliver the gold to the chosen couple. The aunt was all white with the typical dress of the African people. Two of her assistants were carrying the tools to celebrate the slaves’ passing to the other life. Everything happened as planned. The night was clear and quiet. The aunt began the ritual with a strange speech in a language unknown to the couple. They were scared. Then a slave touched the man’s shoulder and told him he could start digging. He would probably find two sets of bones which he should bury again under the banana tree, but he should not worry, he would never be bothered by anyone else. So the man began digging with a shovel, and really found the bones, set them aside and kept digging. He found a small chest with a lock, very old and rusty. He shouted to the woman what he had found. He thanked the slaves for having chosen them to receive the treasure. The expression of peace was on the faces of those poor things. The ritual ended and no ghost was ever seen again.