Guerra Colonial 1961-1974

BREVE HISTÓRIA SOBRE A GUERRA COLONIAL

  A Guerra Colonial foi um período de grande sofrimento para africanos e portugueses que, durante treze anos, travaram um combate sangrento em, basicamente, três frentes: Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Com efeitos que perduram até os dias de hoje, a Guerra Colonial é um marco na história de africanos e portugueses. Para estes, marca o término da odisséia marítima iniciada com as grandes navegações; para aqueles, representa o monumento de independência dos países africanos. Não querendo esgotar aqui o assunto, apresentamos uma breve história do que foram as guerras coloniais em África.

Quando as manifestações em prol da independência se sucediam em África, o regime salazarista (ordem político-econômica encabeçada por Domingos de Oliveira Salazar, entre 1930 e 1931, criando, assim, o chamado Estado Novo, e que se estendeu por 49 anos), desfocado em relação à Europa, mantinha a mística imperial e pretendia reforçar as ligações entre a metrópole e as colônias. Segundo Rui de Azevedo Teixeira, “o salazarismo – basicamente um ruralismo com uma subindústria –, construiu um imaginário nacionalista no qual se exacerbavam valores e heróis nacionais” (p. 32). Escondia-se um país infectado de características negativas, tais como: o analfabetismo, uma escola-aparelho ideológico do Estado e uma pobreza próxima da dos países comunistas eslavos. A ditadura salazarista, assentada no tripé nacionalismo-colonialismo-estatismo e em estruturas de força mais intimidantes do que ativas, gerou um grau de opressão que aumentava do centro para a periferia, da metrópole para as colônias. Assim, antes da guerra, dominava nas possessões portuguesas na África uma economia colonial primitiva, fundada na exploração de mão-de-obra e extração de matérias-primas abundantes.

As primeiras contestações decorrentes da situação colonial surgiram, inicialmente, de forma camuflada, através de reivindicações laborais, que foram punidas militar e paramilitarmente. Desta forma, prefaciando a Guerra Colonial, três reivindicações por melhores salários acabam em morticínios: em agosto de 1959, em Pidjiguiti, na Guiné, cerca de 50 estivadores são mortos; no ano seguinte (1960), em Mueda, em Moçambique, as forças coloniais massacram centenas de camponeses; e em janeiro de 1961, na Baixa do Cassange, em Angola, milhares de apanhadores de algodão são chacinados.  A censura cala estes acontecimentos e o regime, indiferente, não se preocupa com o iminente romper da guerrilha, da qual recebe, contudo, diversos sinais. Entretanto, a contestação frontal na madrugada de 4 de fevereiro de 1961, em Luanda, quando um grupo de nacionalistas angolanos ataca duas cadeias e o quartel da Polícia Móvel, com o objetivo de liberar camaradas presos, simboliza o princípio do fim do velho império africano de Portugal. Dá-se início a um violento e infreável processo de independência.

A partir dessas manifestações de revolta, o governo português cria, estrategicamente, uma intervenção militar denominada “Para Angola e em força”, a qual previa mobilização urgente, deslocamento significativo de soldados, com atuação incisiva, e uma resolução final em curto prazo nas operações. Paralelamente, a implementação de recursos no desenvolvimento socioeconômico das províncias solidificaria as relações com os nativos e diluiria o fervor nacionalista. Começavam, desta forma, as guerrilhas em Angola (1961), Guiné-Bissau (1963) e Moçambique (1964). Surgem organizações que reuniam as forças populares, tais como: FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique); PAIGC (Pró-Independência da Guiné e Cabo Verde); e a MPLA (Movimento pela Libertação de Angola), junto às quais, como líderes, havia ex-estudantes africanos com formação universitária na metrópole.

Assim, a realidade encontrada, em poucos anos, esfriou os ânimos do regime salazarista e a propaganda ideológica pró-ações militares teve de ser intensificada, criando-se um hiato cada vez maior entre a realidade da guerra e a ficção sobre ela construída. As despesas com a guerra fugiram a todas as previsões, comprometendo a economia portuguesa gravemente; mortos e mutilados retornavam ao país, que os recebia em choque velado. Procurando silenciar os acontecimentos na África, o estado salazarista tratava de impedir a entrada de imagens e palavras vindas do exterior, as quais divulgavam os movimentos reivindicatórios da época.

Internamente, havia fatores negativos que influenciavam no desempenho das tropas portuguesas, como, por exemplo, soldados mal aparelhados (de fraca qualidade e dispersão de origens, provenientes alguns de restos da OTAN e da 2ª Guerra Mundial), mal alimentados, negligenciados pela hierarquia, treinados às pressas. Esses soldados, da tropa normal, eram obrigados a passar dois anos e meio no “quadrado de arame”, vivendo entre o tédio agônico e o medo do ataque inesperado numa “guerra invisível”, provocando neles o sentido de abandono, a tensão nervosa, o cansaço psicológico, a saturação, levando-os a um estado de desmoralização e tristeza, afetando diretamente sua eficiência e tornando-os desinteressados pelo combate.

Já externamente, Portugal não estava de fato totalmente isolado. Embora fosse criminalizado pela ONU, o regime contava com o apoio de alguns países. Em relação à OTAN, com exceção de países como a Holanda, a Dinamarca e a Noruega, Portugal tinha um apoio discreto em relação à sua política colonial. A manutenção da guerra na África, com o passar dos anos, tornava-se cada vez mais difícil de ser sustentada. Havia diversos fatores, internos e externos, que começavam a desencadear um sentimento de mudança.  Em 1968, por exemplo, a queda progressiva no contingente masculino português passível de recrutamento foi tão significativa que o governo se viu obrigado a identificar suas fontes para “fazer a guerra prosseguir”. Entre as causas, havia a imigração, a campanha anticolonialista empreendida no exterior (e também na forças internas oposicionistas).

Em 1969, quando Marcelo Caetano é nomeado chefe político em lugar de Domingos de Oliveira Salazar, as tropas portuguesas já se encontravam escassas de soldados. Além disso, havia uma forte crítica acadêmica, sobretudo em Coimbra e Lisboa. Entre os cadetes, propagandeava-se a idéia de que as reivindicações nas lutas universitárias seriam obscenas e libertinas. Internamente, uma gradual abertura foi sendo estabelecida, com o retorno dos exilados e desmantelamento da PIDE (Polícia de Investigação Política), substituída pela DGS, que manteve quase o mesmo tipo de repressão. A estrutura do Estado Novo, em sua essência, não se alterou nesses primeiros anos. Externamente, as tropas portuguesas continuaram a seguir para a África para lutar contra os “rebeldes”. O rombo econômico tornou-se visível.

No início dos anos 70, a guerra tornou-se o motivo mais importante de discordância entre oposicionistas e governo. Na cúpula das Forças Armadas, a contrariedade à manutenção do status quo nas colônias, já ventilada e reconhecida, tornou-se mais e mais flagrante. Atividades de oposição começam a surgir, através do movimento estudantil, de dissidências políticas, de movimentos católicos progressistas e dos movimentos feministas. Assim, após treze anos de guerra, chegava ao fim o Estado Novo e a Guerra Colonial, quase que pacificamente, via movimento militar generalizado, em 25 de abril de 1974, tendo como uma das figuras centrais o cap. Fernando Salgueiro Maia, seguido por uma multidão que gritava por liberdade e pelo fim da guerra colonial – fato que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos. Após uma longa guerra em três frentes, a derrota portuguesa na Guerra Ultramarina implica a perda do 3º Império – e último –, e o fechamento do ciclo imperial português, obrigando, destarte, o definitivo regresso das caravelas, como afirma Teixeira.

Nesses 13 anos de guerra em Angola, 11 anos na Guiné e 10 em Moçambique, foram contabilizados 9.196 portugueses mortos, o número de feridos acima de 25 mil (sendo 12.500 reconhecidos pelo Estado, com saúde psicológica comprometida por Perturbação do Stress Pós-Traumático – PTSD, destes 3.102 com incapacidade acima dos 50%), num total de 1 milhão de recrutados (1.049.579). Quando os números se referem aos angolanos, moçambicanos e guineenses, a probabilidade aceita é de 1 para 10, elevando o número de mortos para 100 mil, 200 mil deficientes físicos e 1 milhão e 400 mil de neuróticos de guerra. Mas esses dados não são consensuais e tem-se como mais provável uma cifra em torno de 300 mil mortos. Em termos financeiros, os gastos com a guerra atingiu uma variação entre 30 a 42% no orçamento do Estado.

A experiência de guerra se traduzira em muitas conseqüências estendidas até os dias de hoje, chamando a atenção para três que aparecem quase sempre interligadas: o alcoolismo, a PTSD e o rompimento da comunicabilidade/integração, tanto no plano coletivo quanto no pessoal. Outro dado trazido pelos indivíduos portadores ou não de PTSD, que passaram pela guerra, é o sentimento de que a experiência vivida é, em essência, incomunicável, donde resulta a ruptura e o isolamento entre os seres, a começar pelas companheiras. A desconexão se estende ao plano coletivo porque há a sensação de “sem-lugar” dos soldados que retornam ao país que silencia o conflito e suas dores…

REFERÊNCIAS:

KELM, Miriam Denise. Quando a mulher se inscreve em meio à guerra (contributos da voz autoral feminina na representação ficcional das guerras coloniais portuguesas), tese de doutorado PUC-RS, 2005.
MARQUES. A. H. de Oliveira. Breve história de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1995.
RIBEIRO, Margarida Calafate. Uma história de regressos. Império, guerra colonial e pós-colonialismo. Porto: Editora Afrontamento, 2004.
TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português. Agonia e catarse. Lisboa: Notícias, 1998.