João de Melo

 

 

 

João de Melo nasceu na ilha de São Miguel, Açores, em 1949 e aí viveu até concluir a instrução primária. Mudou-se para Portugal continental com 10 anos de idade, a fim de prosseguir estudos. Tem residência em Lisboa desde 1967. Mobilizado para Angola em 1971, esteve vinte e sete meses na guerra colonial como graduado dos serviços militares de saúde, experiência que viria a determinar parte da sua obra literária. Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, foi professor de línguas e literatura no ensino secundário e de escrita criativa e teoria literária numa universidade. É conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Madrid desde 2001, a convite do governo português. É, sobretudo, um escritor de romances e contos, mas publicou também livros de ensaio e crítica literária, antologias, poesia, crônica e literatura de viagem.

Colaborou em A Memória da Água-Viva, Aresta, África, Colóquio/Letras, Vértice. Preparou uma Antologia Panorâmica do Conto Açoriano, dos séculos XIX e XX, em 1978, e uma antologia literária da guerra colonial, Os Anos da Guerra: 1961-1975 (Lisboa, 1988). No domínio do ensaio, debruçou-se sobre a produção literária açoriana contemporânea, procurando as suas coordenadas de literatura insular. Refletindo em A Memória de Ver Matar e Morrer e Autópsia de um Mar em Ruínas a experiência pessoal na guerra colonial, entre 1971 e 1974, a sua ficção remete para a reflexão sobre a experiência insular, no âmbito da reescrita de uma história genesíaca e civilizacional universal para a qual concorrem vários registros de discurso. As diretivas literárias que apõe a cada volume da coleção “O Chão da Palavra”, que dirigiu na editorial Veja, entre os anos 70 e 80 e que contribuiu para a divulgação de autores como António Lobo Antunes ou Maria Ondina Braga, podem, até certo ponto, aplicar-se às suas premissas como ficcionista: aí, depois de definir a palavra literária como comunicação oposta ao “registro fácil da vida” e assumindo no corpo do texto “a fisiologia das suas próprias referências”, aponta, como perspectivas fundamentais do texto literário, “superar o adormecido mundo das trevas, encontrar caminho na libertação do Homem através da cultura, subir a pulso a corda firme da produção da ideia e da ideologia no progresso; contribuir para que o nosso Povo vire em cada página a sua própria página de identificação e de certeza; dignificar uma aposta, hoje tão dispersa, no rumo certo da palavra e da vida. No grande seio materno da Língua Portuguesa”.

OBRAS

Ficção

1975 – Histórias da Resistência
1977 – A Memória de Ver Matar e Morrer
1983 – O Meu Mundo Não é Deste Reino
1984 – Autópsia de um Mar de Ruínas (sobre a guerra colonial)
1987 – Entre Pássaro e Anjo
1988Gente Feliz com Lágrimas
1992 – Bem-Aventuranças
1997 – O Homem Suspenso

Poesia

1980 – Navegação da Terra

Ensaio

1968 – A Produção Literária Açoriana nos Últimos 10 Anos
1982 – Toda e Qualquer Escrita
1982 – Há ou Não Uma Literatura Açoriana?

Viagens

2000 – Açores, o Segredo das Ilhas

Crônicas

1994 – Dicionário de Paixões

Antologias

1978 – Antologia Panorâmica do Conto Açoriano
1988 – Os Anos da Guerra (2 vols.)

PRÊMIOS

Prêmio Dinis da Luz (com o romance O Meu Mundo não é deste Reino)
Prêmio Associação Cultural (com contos Entre Pássaro e Anjo)
Grande Prêmio do Romance e Novela da A.P.E (com o romance Gente Feliz com Lágrimas
Prêmio Eça de Queirós da Cidade de Lisboa
Prêmio Cristóbal Colón das Cidades Capitais Ibero-Americanas (Lima, Peru)
Prêmio Fernando Namora (Prêmio Antena 1 de Literatura)

AUTÓPSIA DE UM MAR DE RUÍNAS

Autópsia de um Mar de Ruínas é uma das mais importantes obras ficcionais que se escreveram sobre os anos de fogo que selaram a presença de Portugal em África e um romance de referência da literatura portuguesa sobre a guerra colonial. No romance de João de Melo Autópsia de um Mar de Ruínas, alternam, capítulo a capítulo, as “vozes” do agressor e do agredido, dando-nos visões opostas ou, pelo menos, na maior parte dos casos, não coincidentes.

EXCERTO DE AUTÓPSIA DE UM MAR DE RUINAS:

 “QUEM VEM LÁ?, BRADOU.

ELE DO ALTO DO POSTO, DE SÚBITO

ENREGELADO E COM UM CALAFRIO NA VOZ,

AO ESCUTAR OS PASSOS QUE CHAPINHAVAM

DO LADO DE LÁ DA MORTE, VIRA-O APENAS

DE FUGIDA, PASSAR, ENCOBRIR-SE, FICAR

COMO QUE ATENTO E EM SUSPENSÃO, IR-SE

FINALMENTE COM O VENTO. E DEIXOU DE VÊ-LO.

 

Pensou que voara, alando-se ou apenas se extinguindo num espaço impreciso, entre a noite e uma sebe de canas de bambu que ali havia. Ainda assim, apontou-lhe a arma, mas à cegas. Não um corpo em sua concreta forma definida, pensou, mas a breve sombra de um vulto, sem corpo e sem cabeça – ou com ela estranhamente suspensa e degolada, que é como todas as sombras se movem nas noites furtivas da guerra. Logo a seguir, reapareceu a flutuar à sua frente, iluminando-se em contraste com a penumbra, um anjo perdido da guerrilha: como se se tivesse posto de novo em levitação.

Através da mira da arma, é uma silhueta sem espessura que se enrola sobre si, tropeça, segura-se à escuridão para não cair e depois salta para diante. Se era anjo, depenara-se: perdera as pernas, a cauda, sobretudo as asas. Agora, lembra apenas um gafanhoto agachado, imóvel, com as patas tensas, postas em arco. Fica um momento à escuta, de súbito tão verde quando o seu espanto, mas acabo por rastejar à pressa para o capim.

O soldado soube então que o pânico começaria a castigar-lhe as tripas. Terei de gritar de novo, pensou. Pensou que levaria o dedo ao gatilho da arma pronta a disparar; que o dedo e o queixo lhe tremeriam sem controlo – por quanto o medo da noite e da morte, o nocturno e infernal medo de morrer, convertera-lhe já o corpo no de um prisioneiro de guerra.

Assestar uma metralhadora, do alto de um posto de sentinela, sobre uma coisa difusa – homem, anjo ou bicho seria sempre um acto muito superior à sua vontade; um gesto tão grande como a destruição do mundo, pensou. Pensou que um gesto assim lhe ficaria de memória para o resto de seus dias. Além disso, pensou ainda, há o vapor do meu próprio grito: acordar as águas adormecidas, ferir o silêncio do tempo e do vento, destravar a guilhotina que a esta hora repousa sobre o sono das casernas e fugir de mãos no ar, apanhadas pelo crime.

Decide esperar. Brando, o grito escorre para dentro. É o silêncio exactamente às avessas: beber o cálice sedento do socorro ou fugir dali para fora, de gatas e aos apalpões a escuridão? Terá, contudo, de apanhá-lo na próxima corrida, quando vir o gafanhoto empinar de novo as patas e alçar de seu vôo de anjo mortal sobre o motor da luz, para o destruir à granada. O pior eram as mãos trêmulas. Quem vem lá? Corriam, perdidas, ao longo da arma, suadas do visco de resina que se despegava do metal e lhe inundava de gordura os dedos inchados pelo frio. Nem óleo nem óxido de ferro: “a resina”, pensou. Uma linhada corrosiva como a lixa. Mas entranhada por membranas de morcego, paranhos de beusgo, casca de ovos de insecto e cabelo de rato. A fazer lembrar, ainda e sempre, o sarro da boca dos mortos – as suas vísceras infelizes e em sangue.

Desviou o olhar e sondou a noite em volta. O cacimbo forrara as folhas de zinco, que cobriam as casernas, de uma saliva rosada, calcária, e a humanidade escorria das paredes descaiadas pelas grandes chuvas do Norte. Chegavam até ali o torpor, a respiração morna e a espuma dos pântanos distantes. Quando voltou a procurá-lo na escuridão, o gafanhoto estava de cócoras no meio do capim. Tinha as patas perfeitamente pousadas no solo, talvez o estivesse observando sem olhar. Os crocodilos, pensou, espreitam assim. Com os olhos parados, é certo, mas espiando sempre aqueles que ousam ou pensam estar a vigiá-los. Os crocodilos imóveis, rígidos e atentos como deuses em levitação, pensou.

Tremia-lhe muito o queixo, quando voltou a gritar: quem vem lá?, e a voz já não era a sua. Enchera-se talvez no mesmo pânico dos condenados à morte perante um pelotão de fuzilamento. Também já não era seu o dedo que devagar tirava a folga ao gatilho. Quem estava então por dentro do seu corpo, embrulhando nos nervos e tão agraciado à beira de morrer? Sozinho, o dedo premiu a mola. A Arma desfechou-lhe um coice no ombro. Então, um fogo de rajadas começou a varrer tudo quando houvesse em frente. O soldado observou que o capim, os bidons de combustível para o gerador da luz, os ninhos de morteiro, a picada Pemba e a tonga do café estavam sendo bombardeados pelos ovos de fogo da sua arma. Pontas incendiárias tracejavam a noite escuríssima, metralhada ao som de uma máquina de costura funcionando solitariamente no vácuo.

Súbitas cabeças apontaram à porta das casernas. Eram só rostos à espreita, pensou. Mas farejavam a noite de cima para baixo, pensando decerto que chovia. Tinham nos olhos os tais cães de angústia e sem coragem, debaixo da chuva. Outros, ainda bêbados de sono, saltavam à pressa das camas. Trataram de pegar nas armas e nas cartucheiras ensarilhadas pelos cantos. Ao longe, uivavam, cegos e assustados, num alvoroço, os cães de verdade e sem poiso certo, cães acordados de sobressalto que latiam sempre por hábito e só por isso. Quanto aos rapazes, corriam agora dobrados pela barriga em direcção às trincheiras; corriam em ziguezague e em desordem, curvados, para a frente e sempre para a frente – e eram estalidos muito rápido de manípulos puxando a culatra e injectando a primeira bala, e botas esterroando na areia da parada como se mastigassem o espaço entre a caserna e as valas.” (MELO, 2002, p.09 a 12)

 

REFERÊNCIAS:

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/jmelo.htm
http://www.infopedia.pt/$joao-de-melo
MELO, João de. Autópsia de um mar de ruínas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.