José Martins Garcia

 

 

José Martins Garcia nasceu na Criação Velha, Ilha do Pico, a 17 de Fevereiro de 1941, tendo falecido em Ponta Delgada a 4 de Novembro de 2002. Fez uma parte dos seus estudos liceais na cidade da Horta, já em Lisboa licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras. Um dos traços relevantes na obra de José Martins Garcia é a diversidade em gênero, tendo publicado romances, contos, poesias e ensaios. Sua obra é considerada complexa e permeada por motivos e temas recorrentes, como, por exemplo, a temática açoriana presente em várias de suas obras, ou, ainda, a experiência traumática de guerra durante os anos que vivera em Guiné-Bissau. José Martins Garcia tornou-se conhecido como um dos primeiros autores portugueses a escrever sobre a Guerra Colonia. José Martins Garcia foi convocado para o serviço militar no ano de 1965, sendo mobilizado para a Guiné-Bissau, permanecendo durante longos dois anos (1966-1968), experiência ficcionalmente projetada em Lugar de Massacre, de 1975. A obra é um dos primeiros romances portugueses pós-colonialistas que retratam as mazelas da Guerra Colonial em África.

OBRAS

Ensaio e Crítica

Linguagem e Criação (1973)
Cultura, Política e Informação (1976)
Vitorino Nemésio. A Obra e o Homem (1978)
David Mourão-Ferreira. A Obra e o Homem (1980)
Temas Nemesianos (1981)
Fernando Pessoa – “Coração Despedaçado” (1985)
Para uma Literatura Açoriana (1987)
David Mourão-Ferreira – Narrador (1987)
Vitorino Nemésio – à luz do Verbo (1988)
Exercício da Crítica (1995)

Teatro

Tragédia Exacta (1975)
Domiciano (1987)

Conto

Katafaraum é uma Nação (1974)
Alecrim, Alecrim aos Molhos (1974)
Querubins e Revolucionários (1977)
Receitas para Fritar a Humanidade (1978)
Morrer Devagar (1979), Contos Infernais(1987)
Katafaraum Ressurecto (1992).

Romance

Lugar de Massacre (1ªedição: 1975)
A Fome (1ªedição: 1978)
O Medo (1982)
A Imitação da Morte (1982)
Contrabando Original (1987)
Memória da Terra (1990)

Poesia

Feldegato Cantabile (1973)
Invocação a um Poeta e Outros Poemas (1984)
Temporal (1986)
No Crescer dos Dias (1996)

LUGAR DE MASSACRE: 

Esta narrativa centra-se em duas personagens: conde d’Avince e Pierre Avince. Ambos são recrutados para a guerra colonial, mas em situações bem distintas. O contexto da guerra que para cada um deles é o que em grande parte vai definir seus ato. Dois homens que apesar de terem o mesmo sobrenome, são detentores de realidades e concepções opostas, sentindo suas vidas serem inundadas pelas mudanças irreversíveis da guerra.

Trechos da obra:

“Graças a influencias conjugadas, logrou o jovem conde ascender aos Serviços de Conjugação […] Multiplicou de zelo, alcançou um dos melhores lugares. Apesar disso, pesava-lhe no currículo uma deficiência em exercícios físicos. Foi enviado para a guiné-Bissau, onde os inimigos do todo se haviam instalado em grande parte”.

“A recepção mostrava-se displiciente, plebeia, bruta e insufuciente […] Havia dentes brancos emergindo de avassalador negrume, brancos-do-olho rolando na noite. E Avince desarmado, vendo-se trucidado logo no inicio da gloriosa missão”.

“O mesmo barco que levou Silva trouxe ao convívio do Conde Avince uma personagem pouco menos sinistra. Tratava-se de Pierre Avince, essa injúria a um nobre apelido, por ser este Avince um ser boçal, sem qualquer parentesco com a família dos nobres Avinces. Tão lamentável coincidência já fornecera ao jovem conde tema para meditações profundas e improfícuas, todos incidentes no modo como Deus escreve direito por linhas tornas, a ponto de ter permitido que um mesmo apelido se aplicasse ao detentor da pureza e a um reles libertino”.

“Pierre Avince era, na verdade, um ser sem sombra de dignidade, um dos plebeus incômodos recrutados pelos Serviços de Conjugação. Falava muitas línguas quando se embebedava, o que acontecia todas as noites. Não comparecia ao treino porque , acordado antes do meio-dia ficava absolutamente incapaz de fazer uma conta de somar […] Pierre Avince, ex-professor de sua terra, deixara a profissão para obedecer às leis. Boas ou más, são para se cumprirem, e uma sociedade apodrecida vomita as leis da própria podridão. E, numa terra de loucos carcomidos por fábulas e epopeias sem real, arrancavam-se os homens aos ofícios para os meter em abrigos de degredo. Salvo os mandões e ricos – número escasso -, todos ali vegetavam contrariados, vitima duma engrenagem monstruosa”.

“Encostado ao balcão, no bar do quartel-general, o alferes miliciano Pierre Avince bebia Whisky, contemplando pela terceira e última vez, a estação chuvosa. O chefe da justiça, bem penteado e de óculos intelectuais, tocou-lhe no braço e anunciou uma confidência. Pierre foi ouvindo. Meses atrás, o comando daquele território fora alertado por uma onda de boatos, segundo os quais  a homossexualidade assumira inéditas proporções entre as forças estacionadas em Bissau.em certos serviços burocráticos a infiltração dos panascas era tanta que algum desses elementos não escondiam as suas preferências. […] o capitão Porca  e seu subordinado conde d’Avince encabeçavam a lista negra.  Mas o comandante Porca, dado o seu estatuto de chefe de um serviço secreto e, naquele território, praticamente independente, não podia ser deslocado, e não se encontrava para tal um fácil pretexto. Limitaram-se a sugerir, em nome do brio, que mandasse para o mato o alferes Avince (conde), dado o comportamento indigno de tal oficial. Ninguém se lembrou de verificar quantos Avinces existiam nos serviços de Conjugação. E assim o conde d’Avince continuou na paneleiragem impunemente e você andou pelo mato […]”

REFERÊNCIAS:

http://www.triplov.com/boletimnch/boletimnch_2004/martins_garcia.htm
http://www.eccn.edu.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=97&Itemid=2