Tema

O fato é inegável: na literatura ocidental, toda uma tradição canônica literária assenta-se em relatos de enfrentamentos bélicos, associados à constituição dos povos e à institucionalização de coletividades, agregadas no fundo comum dos combates. A constância do tema na sua versão narrativa literária aponta para o interesse nunca diminuído pela leitura de tais textos, e também para a inextricável aliança entre movimentos factuais de índole violenta, havidos e/ou imaginados, a constituição de identidades nacionais e sua exposição escrita, espécie de estatuto verbal composto de vários elementos – sociais, históricos, religiosos, míticos e culturais – e estabelecedor de agregações étnico-raciais com sentidos de comunidade.

Com Portugal e suas ex-colônias ultramarinas não foi diferente. A Revolução dos Cravos em abril de 1974, que pôs fim ao regime salazarista que perdurara por 4 décadas, também trouxe consigo o término das guerras coloniais, travadas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Em Portugal, a expressão simbólico-literária ocupou espaços que a própria historiografia do evento demorou a preencher, o que tem sido feito efetivamente nos últimos anos. Hoje, há todo um investimento no registro da história oral, interessado em compor uma memória abrangente enquanto existe tempo hábil para fazê-lo, pois, no dizer do escritor angolano Uanhenga Xitu “A História demora fazer-se. As testemunhas oculares vão se apagando pouco e pouco, não aguentando o peso da idade e os efeitos dos sacrifícios pelo que passaram.” (XITU, 1982).

Às contingências político-existenciais correspondeu uma produção escrita memorialística e ficcional, em que é possível se vislumbrar algumas explicações para o que se contabiliza como sendo, hoje, a literatura portuguesa. Especificamente em relação às guerras coloniais, o mais danoso e dramático conflito com que Portugal se deparou no século XX, tem-se uma quantidade expressiva de obras (cerca de 170 títulos até hoje publicados, entre poesia, memórias e ficção literária) dentre as quais várias alcançaram parâmetros significativos de qualidade e profundidade.

Uma visada sobre o modo como a produção ficcional gerada pelas guerras coloniais portuguesas tem sido vista e analisada, hoje, demonstra o encaminhamento de múltiplas possibilidades de pesquisa e enfoques ainda por desenvolver, principalmente em áreas interdisciplinares, das quais a História e a Literatura são as mais visíveis. A par da necessidade pressentida e confirmada de constituir um relato histórico suficiente para a complexidade inerente às guerras coloniais, cada vez mais se admite a vinculação do discurso historiográfico com a diversidade das formas literárias e, no entender dos historiadores José Pedro Paiva e Amadeu C. Homem é possível:

“Encarar os escritores-literatos como agentes históricos qualificados, no duplo sentido de recolectores concretos daquelas especificidades temporais que lhes modelaram as obras e também no de proponentes daqueles postulados literários assimilados pelas formas de sentir e pelos modos de agir dos grupos constitutivos da coletividade”. (In: Revista de História das Ideias. História e Literatura, v. 21, 2000, Coimbra (Inst. De História e Teoria das Ideias da Fac. Letras da Universidade de Coimbra), Nota de Apresentação.

A aceitação dos escritores na qualidade de, também, agentes históricos, pode ser considerada lembrando das circunstâncias de que a produção literária sobre as guerras coloniais antecipou-se à historiografia do evento e de que os seus autores, na quase totalidade, tiveram algum tipo de participação direta nos acontecimentos. O quase ineditismo da situação histórica da literatura portuguesa – o fato de que os autores que alcançaram maior reconhecimento estiveram no cerne de todos os pesadelos – indica que a guerra os levou à escrita, num primeiro impulso de indignação, depois depurado pelo exercício laboral proporcionado pelas técnicas narrativas. É o caso de Lobo Antunes, João de Melo, José Martins Garcia, Lídia Jorge, Teolinda Gersão, Álamo Oliveira, Manuel Alegre e Álvaro Guerra, só para citar alguns exemplos.

Sendo parte integrante da Geração de Abril, esses ficcionistas assumiram o ato de escrever sobre o tema dos conflitos coloniais como uma ação responsável, do ponto de vista cívico e ético, e alcançaram níveis de criação literária excepcionais.