Verbetes

EXPERIÊNCIA-LIMITE/EVENTO-LIMITE (TRAUMA)

Para Freud, a experiência traumática é aquela que não pode ser totalmente assimilada enquanto ocorre. Para Seligmann-Silva, o testemunho seria a narração não tanto desses fatos violentos, mas da resistência à compreensão dos mesmos. A linguagem tenta cercar e dar limites àquilo que não foi submetido a uma forma no ato de sua recepção. Daí Freud destaca a constante repetição, alucinatória, por parte do “traumatizado” da cena violenta: a história do trauma é a história de um choque violento, mas também de um desencontro com o real. A incapacidade de simbolizar o choque – o acaso que surge com a face da morte e do inimaginável – determina a repetição e a constante “posterioridade”, ou seja, a volta à cena. Nessa esteira, Walter Benjamin afirma que o choque é parte integrante da vida moderna: a experiência agora deixa de se submeter a uma ordem contínua e passa a se estruturar a partir das inúmeras “interrupções” que constituem o cotidiano moderno.

De acordo com Ginzburg, “O estudo do testemunho exige uma concepção da linguagem como campo associado ao trauma. A escrita não é aqui lugar dedicado ao ócio ou ao comportamento lúdico, mas ao contato com o sofrimento e seus fundamentos, por mais que sejam muitas vezes obscuros e repugnantes. O século XX se estabeleceu como tempo propício para testemunho, em virtude da enorme presença das guerras e dos genocídios. Para o sujeito da enunciação do testemunho, entre o impacto da catástrofe e os recursos expressivos, pode haver um abismo intransponível, de modo que toda formulação pode ser imprecisa ou insuficiente.” (GINZBURG, 2007, p.03). Para Penna, “o testemunho fala e narra o nosso encontro com o Real do trauma” (PENNA, 2003, p.345). Seligmann-Silva admite ainda que, em tempo de catástrofes, o trauma impregna-se ao cotidiano, com a difusão do choque na modernidade; e resiste à representação.

HISTORIOGRAFIA

Tem como papel a investigação científica, baseada em documentos e visando o esclarecimento e explicação do ocorrido. Seligmann-Silva afirma que, do ponto de vista do sobrevivente, o registro historiográfico é limitado e não dá conta de sua experiência.  Já para o historiador, o testemunho é apenas uma fonte que deve ser utilizada com rigor, e à qual devem-se corrigir as  falhas – típicas do processo de recordação, sobretudo quando se trata da memória de vivências traumáticas.  O registro historiográfico pretende “dar conta de todo o “passado”. Apenas para a historiografia vale o particípio “passado”, e não para aquele que testemunha.

LEITOR/INTERLOCUTOR

Para Maria Rita Kehl (2004), a literatura de cunho testemunhal produz uma ética outra que consiste justamente em implicar o leitor no processo de escritura do trauma, responsabilizando-o, assim, mesmo que somente através do pensamento, pela dor do outro. Nesse sentido, Leal afirma que “a literatura testemunhal demanda um leitor que tome para si a responsabilidade dos acontecimentos” (LEAL, 2007, p.131), tal como afirma Gagnebin (2006) ao colocar no leitor-ouvinte a possibilidade de “levar adiante” a história do outro.

LITERATURA DE TESTEMUNHO

Narrativa onde vida e texto são indissociáveis, cuja escritura é fragmentada, ruinosa, que porta tanto a recordação quanto o esquecimento. Para Seligmann-Silva, “a literatura de testemunho, como a realizada por alguém que sobreviveu – contrariamente à literatura-denúncia, reportagem – é marcada pela fragmentação e impossibilidade de desenhar um contexto que deveria acomodar o “texto” criptografado na memória do autor (ou da sociedade)” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.41). Nesse sentido, vemos o campo de forças sobre o qual a literatura de testemunho se articula: por um lado, a necessidade premente de narrar a experiência vivida; por outro, a percepção da insuficiência (cisão) da linguagem diante dos fatos (inenarráveis) como também – e com um sentido muito mais trágico – a percepção do caráter inimaginável dos mesmos e da sua conseqüente inverossimilhança, colocando-se o testemunho sob o signo da sua simultânea necessidade e impossibilidade.

Em se tratando da literatura produzida no Brasil nos anos de repressão militar, Renato Franco em sua reflexão afirma que essa literatura é lida dentro da chave do trauma, da catástrofe e do testemunho: a saber, ele reflete sobre a tensão entre construção literária, denúncia, luta contra o esquecimento e sobre a própria destruição do indivíduo dentro do sistema ditatorial.

“O estudo de Franco deixa claro como a noção de literatura testemunhal nada tem a ver com um gênero específico, nem pode ser reduzida à apresentação de catástrofes da intensidade da Shoah. O testemunho deve ser visto como um elemento  da literatura que aparece de modo mais claro em certas manifestações literárias que em outras. O conceito de testemunho pode permitir uma nova abordagem do fato literário que leva em conta a especificidade do “real” que está na sua base e as modalidades de marca e rastro que esse “real” imprime na escritura. A literatura expressa o seu teor testemunhal de modo mais evidente ao tratar de temas-limite, de situações que marcam e “deformam” tanto a nossa percepção como também a nossa capacidade de expressão. O testemunho alimenta-se, como vimos, da necessidade de narrar e dos limites dessa narração (subjetivos e objetivos, em uma palavra: éticos” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.39-40).

MEMÓRIA

Nas palavras de Seligmann-Silva: “A memória só existe ao lado do esquecimento: um complementa e alimento o outro, um é o fundo sobre o qual outro se inscreve.” (SELIGMANN-SILVA, 2003, 53). Para o sobrevivente, segundo o autor, na narração há uma combinação entre memória e esquecimento. Na arte da memória, estão conectadas as idéias que devem ser lembradas a imagens e, por sua vez, essas imagens a locais bem conhecidos. A arte da memória, tal como a literatura de testemunho, é uma arte da leitura de cicatrizes. “A memória, como resgate de um trauma, traz à literatura uma função complexa de atualizar e redimensionar aquilo que foi suprimido.” (FIUZA, 2007, p.165) Ainda: “O ato de narrar traz para o presente algo que está temporalmente em vias de esquecimento” (FIUZA, 2007, p.161).

Em Walter Benjamin, a teoria da história é, de acordo com Seligmann-Silva, uma teoria da memória, cujo papel dentro das discussões e pesquisa acerca da literatura/arte de testemunho tem sido de grande importância. Conforme Seligmann-Silva, “Benjamin mostrou estar à frente da sua época: creio que ele é o pensador que melhor pode instrumentalizar-nos na leitura dos textos de testemunho. Se a arte e a literatura contemporâneas têm como seu centro de gravidade o trabalho com a memória (ou melhor, o trabalho da memória), a literatura que situa a tarefa do testemunho no seu núcleo, por sua vez, é a literatura par excellence da memória. Mas não de simples rememoração, de “memorialismo”. Antes, essa literatura trabalha no campo mais denso da simultânea necessidade do lembrar-se e da sua impossibilidade; para ela não há uma mera oposição entre memória e esquecimento.” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.388)

Para Seligmann-Silva, o conceito de imagem dialética, elaborado por Walter Benjamin, é o resultado da concepção de uma historiografia como destruição “falsa aparência da totalidade”. Assim, Walter Benjamin define as imagens dialéticas como “a memória involuntária da humanidade redimida”, ou seja, o agora que está na base do conhecimento da História estrutura, para ele, o reconhecimento de uma imagem do passado que, na verdade, é uma “imagem” da memória. “Ao invés da busca da representação (mimética) do passado “tal como ele foi”, como as posturas tradicionais historicistas e positivistas (em uma palavra, representacionistas) da História o postulavam, Benjamin quer articular o passado historicamente apropriando-se “de uma reminiscência. […] Essa história construída com base na memória involuntária despreza e liquida o “momento épico da exposição da história”, ou seja, a sua representação segundo uma narração ordenada monologicamente. “A memória involuntária nunca oferece […] um percurso, mas sim uma imagem (Daí a ‘desordem’ como o espaço-imagético da memória involuntária.) […] A essa leitura que se guia pelo ritmo caótico da memória involuntária corresponde uma historiografia fragmentada”. (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.399)

O passado – tal como Benjamin aponta –, é uma imagem mutilada; um misto indissociável de lembrança e trabalho do tempo; esquecimento. Assim, se as lembranças nascem como raios, iluminações que são despertadas pelo nosso espaço/presente imediato, elas são, quase sempre, isoladas, uma vez que na modernidade a onipresença do choque impede uma continuidade narrativa. De outra maneira, o choque também pode servir para a conservação dessas imagens as quais são como que petrificada; nesta esteira, Benjamin aproxima-se do modelo de trauma elaborado por Freud. “O trabalho de retecer o texto da experiência – destruído pelos choques da vigília – é, a priori, interminável. A promessa do reencontro nunca se cumpre totalmente.” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.408) 

NARRAÇÃO/ATO DE NARRAR/TESTEMUNHAR

Externando uma lembrança, o sujeito que narra fala de algo particular que se quer legítimo pela presença ativa do narrador no acontecimento em questão. Para Fiuza, ao narrar a experiência percebemos que a relação testemunhal funde-se na presença real do enunciador na cena, unindo, assim, corpo e voz. Nesse sentido, Afirma Sarlo “não há testemunho sem experiência, mas tampouco há experiência sem narração: a linguagem liberta o aspecto mudo da experiência, redime-a de seu imediatismo ou de seu esquecimento e a transforma no comunicável, isto é, no comum. A narração inscreve a experiência numa temporalidade que não é a de seu acontecer (ameaçado desde seu próprio começo pela passagem do tempo e pelo irrepetível), mas a de sua lembrança. A narração também funda uma temporalidade que a cada repetição e a cada variante torna a se atualizar” (SARLO, 2007, p.24 e 25).

Para Seligmann-Silva, “a narrativa testemunhal é marcada por uma lacuna entre evento e discurso” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.31). Testemunha-se um excesso de realidade e o próprio testemunho enquanto narração testemunha uma falta: a cisão entre a linguagem e o evento, a impossibilidade de recobrir o vivido (o “real”) com o verbal. Essa linguagem entravada, por outro lado, só pode enfrentar o “real” equipada com a própria imaginação: por assim dizer, só com a arte a intraduzibilidade pode ser desafiada – mas nunca totalmente submetida.

TEMPO PASSADO

Na situação testemunhal, o tempo passado é o tempo presente. Para Beatriz Sarlo, “Poderíamos dizer que o passado se faz presente. […]  o tempo próprio da lembrança é o presente: isto é, o único tempo apropriado para lembrar e, também, o tempo do qual a lembrança se apodera, tornando-o próprio” (p.10). Nesse sentido, Fiuza afirma que “a lembrança necessita do presente, pois ela não é um acontecimento passado deslocado, mas sim um fenômeno discursivo trabalhado e moldado a partir de bases psíquicas anteriores, que, no entanto, só se realiza através do relato no presente” (SARLO, 2007, p.159-160)

TESTEMUNHA (SOBREVIVENTE)

A testemunha de um evento-limite encerra em si um dilema, descrito por Seligmann-Silva: “O sobrevivente vive o ‘drama do testemunho’ que está irremediavelmente ligado a um processo dialético e complexo no qual recordar e esquecer são dois fatores dinâmicos e inseparáveis (ele, em certa medida, recorda para esquecer e, por que não consegue esquecer, precisa narrar)” (SELIGMANN-SILVA, 2003, xx). O testemunho para o sobrevivente, como afirma Appelfeld (1989), “é, antes de mais nada, a busca de um alívio; e como ocorre com qualquer carga, aquele que a porta quer se livrar dela o quanto antes”. Ainda, numa ampliação do conceito de testemunha, proposta por Jeanne-Marie Gagnebin, “Testemunha seria também aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que as suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro…”. (2006)

TESTEMUNHO

Segundo Seligmann-Silva, “a noção moderna de testemunho tem uma dupla origem: nasceu do acúmulo de catástrofes no século XX (iniciadas pela Primeira Guerra Mundial) e também da potente influência do modo de pensar psicanalítico sobre as demais áreas das ditas ciências humanas.” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.33). O termo “testemunho” pode ser traçado etimologicamente de dois modos, ambos importantes para a compreensão dos sentidos que estão em jogo quando o empregamos:

Em primeiro lugar, podemos ver o testemunho como uma figura jurídica (testemunho jurídico): testemunha é aquela que pode declarar e atestar algo verídico. Testemunho é derivado, assim, do grego terstis, terceiro. Nesse sentido, exige-se do testemunho uma objetividade e uma (impossível) “factografia”.

Em segundo lugar, podemos pensar o testemunho como derivado de outro termo: superstes, do latim, que é ao mesmo tempo o sobrevivente e a testemunha, de ter-se passado por um evento-limite, radical, passagem essa que foi também um “atravessar a morte”, que problematiza a relação entre a linguagem e o real.

Diz Seligmann-Silva: “… o testemunho é visto como um modo de construir uma ponte para fora do evento traumático.” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.33).

TESTIMONIO

Na América Latina, o conceito testimonio foi desenvolvido nos países de língua espanhola a partir do início dos anos 60, onde predominou uma leitura que não primou pela problematização da questão da representação e tendeu a ver o testemunho, sobretudo, nas modalidades de denúncia, reportagem, biografia, hagiografia, confissão e testemunho bíblico, passando-se da reflexão sobre a função testemunhal da literatura para uma conceitualização de um novo gênero literário, a saber, a literatura de “testimonio”. Diferentemente da “política da memória” que marca as discussões em torno da Shoah (…..), na América Latina, a literatura de testimonio possui um peso mais de política “partidária” do que “cultural”, ocorrendo, assim, uma convergência entre política e literatura.

Dentro de uma perspectiva de luta de classes, assume-se esse gênero como o mais apto para “representar os esforços revolucionários” dos oprimidos, como afirmou Alfredo Alzugarat. Dentro da teoria de testimonio, podem ser desenvolvidas certas categorias, tais como a idéia do testimonio como uma modalidade de contra-história; ainda, considera-se a idéia de que testimonio representa a vida não de uma pessoa em particular, mas sim de alguém exemplar.

O universal, o simbólico, não pode dar conta do “real”. Essa percepção, no entanto, não é evidente na mesma medida na teoria do testemunho e na do testimonio.

 

REFERÊNCIAS:

ALZUGARAT, Alfredo. El testimonio en  al revista Casa de las Americas. In: ACHUGAR, H. (org.) En otras palabras, otras historias. Montevidéu: Universidad de la Republica; Faculdad de Humanidades y Ciencias de la Eduión: Departamento de Publicaciones, 1994, p.173.
APPELFELD, A. After the holocaust. In: LANG, B. (org.), Writing and the holocaust. New York, Londres: Holmes & Meier, 1988, p.84.
FUIZA, Marcos. Literatura e testemunho. In: Literatura e violência: o lugar da memória traumática, Gândara, Instituto Camões, PUC-RIO, Rio de Janeiro, nº. 2, 2007, p. 159 a 168.
GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Lembrar, escrever, esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.
KEHL, Maria Rita. Três perguntas sobre o corpo torturado. In: KEIL, Ivete & TILBURI, Márcia (org.). O corpo torturado. Porto Alegre: Escritos, 2004.
LEAL, Lara. O longo aprendizado da agonia: a epopéia lírica de Lobo Antunes. In: Literatura e violência: o lugar da memória traumática, Gândara, Instituto Camões, PUC-RIO, Rio de Janeiro, nº. 2, 2007, p.127 a 137.
SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. (org.) História, memória e literatura – o testemunho na era das catástrofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. Testemunhos da barbárie. In: Revista EntreLivros – Memórias da guerra. São Paulo, Ano 3,  nº 28, p. 32 a 35.
GINZBURG, Jaime. Linguagem e trauma na escrita do testemunho. Porto Alegre: Revista Conexão Letras: UFRGS, 2007. Disponível em: http://www.msmidia.com/conexao/main.htm
PENNA, João Camillo. Este corpo, esta dor, esta fome: notas sobre o testemunho hispanoamericano. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio, (org.) História, memória, literatura. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.